terça-feira, 28 de maio de 2013

Consciência



Centrado em meus movimentos
derreto a dureza dos meus pensamentos.
Como o sol, degelando a neve
de um longo inverno.
Sinto-me como um ser
na aurora do seu despertar.

Respiro, retenho, observo...
Coloco a intenção
de levar o luminoso oxigênio
aos lugares mais recônditos do meu corpo,
qual caravelas por mares desconhecidos.
Sinto que o meu corpo se incendeia e se purifica.

Respiro conscientemente.
Deparo com a minha desconcentração,
com a minha dispersão,
com a minha mente tagarelando
coisas do passado ou do futuro.
Mergulho em minha sombra.

Vejo-me tal qual um pisca-pisca,
alternando momentos de clareza
- a lucidez do instante presente,
com momentos de obscuridade
 - o mergulho na inconsciência.

Respiro, retenho e me estiro.
Tomo consciência da dor,
das limitações.
Do quanto a história desta vida
e a de tantas outras
deixaram suas marcas no meu corpo.
Nódulos,
encurtamentos,
desvios,
desequilíbrios.

Claudicante,
sigo, mesmo assim,
para aprender fluir
por entre as barreiras,
no sentimento de estar pleno, de estar vivo, 
afinando-me à sintonia cósmica.

Respiro,
retenho,
sinto toda a verdade ao meu respeito
e a aceito.
Relaxo,
aceito-me,
confiando no silencioso plano de amor
daquele que É.

Contemplo o mundo,
vejo a multidão de semideuses.
Seres em busca de Ser.
Está tudo certo,
tudo está fluindo no tempo divino
como o rio,
inexoravelmente atraído para o mar.
Está tudo certo,
basta que eu me renda, 
me entregue
e confie.


 Machado, Júlio Cesar IN: “Amor e Mudança” – Ed. Fênix – B.H./M.G.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Meditação modifica seu cerebro


"Você sabia que a prática regular da meditação aumenta a espessura do seu cérebro?

A Dra. Sara Lazar, professora e pesquisadora em neurociências da Universidade de Harvard, EUA, começou sua palestra na Palas Athena em São Paulo ontem à noite dizendo que algumas pessoas, quando ouvem a palavra “meditação”, pensam naquelas figuras sentadas nos anos 1960, usando aquelas vestes brancas esvoaçantes, ao som de cítaras e com o odor de incenso pairando no ar.

Isso já era. Agora a prática da meditação é o assunto da hora no campo das pesquisas neurológicas, e a Dra. Lazar publicou um notável estudo provando que, devido ao fenômeno da plasticidade cerebral, a prática regular e sistemática da meditação de fato muda a estrutura do cérebro. Ela aumenta a quantidade de substância cinzenta nos neurônios na ínsula (1), área responsável pela integração dos pensamentos, sentidos e emoções: e as pessoas com mais atividade na ínsula ficam menos sujeitas a depressão. A meditação também aumenta tanto o córtex pré-frontal (2) como a região do cingulado posterior, que são as áreas responsáveis pela empatia, compaixão e autocontrole.

Se você quiser esculpir seu cérebro para melhorar seu desempenho mental e a sua vida de um modo geral, crie o hábito diário de fechar os olhos e mergulhar dentro de si. "

Susan Andrews - Instituto Visão Futuro

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Consciência em todos os animais

Recebi de uma grande amiga esse artigo e achei muito interessante pois muitas vezes precisamos de comprovação cientifica para afirmar o que o nosso bom senso diz.

"Não é mais possível dizer que não sabíamos", diz Philip Low
Neurocientista explica por que pesquisadores se uniram para assinar manifesto que admite a existência da consciência em todos os mamíferos, aves e outras criaturas.

Veja.com - Quais benefícios poderiam surgir a partir do entendimento da consciência em animais? 
P. L. - Há um pouco de ironia nisso. Gastamos muito dinheiro tentando encontrar vida inteligente fora do planeta enquanto estamos cercados de inteligência consciente aqui no planeta. Se considerarmos que um polvo — que tem 500 milhões de neurônios (os humanos tem 100 bilhões) — consegue produzir consciência, estamos muito mais próximos de produzir uma consciência sintética do que pensávamos. É muito mais fácil produzir um modelo com 500 milhões de neurônios do que 100 bilhões. Ou seja, fazer esses modelos sintéticos poderá ser mais fácil agora.

Veja.com - Qual é a ambição do manifesto? 
P. L. - Os neurocientistas se tornaram militantes do movimento sobre o direito dos animais? É uma questão delicada. Nosso papel como cientistas não é dizer o que a sociedade deve fazer, mas tornar público o que enxergamos. A sociedade agora terá uma discussão sobre o que está acontecendo e poderá decidir formular novas leis, realizar mais pesquisas para entender a consciência dos animais ou protegê-los de alguma forma. Nosso papel é reportar os dados.

Veja.com - As conclusões do manifesto tiveram algum impacto sobre o seu comportamento? 
P. L. - Acho que vou virar vegetariano. É impossível não se sensibilizar com essa nova percepção sobre os animais, em especial sobre sua experiência do sofrimento. Será difícil, adoro queijo.

Veja.com - O que pode mudar com o impacto dessa descoberta?
P. L. - Os dados são perturbadores, mas muito importantes. No longo prazo, penso que a sociedade dependerá menos dos animais. Será melhor para todos. Deixe-me dar um exemplo. O mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade. Um primeiro passo é desenvolver abordagens não invasivas. Não acho ser necessário tirar vidas para estudar a vida. Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais. Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela serve nossos ideais, em vez de competir com eles.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Quanto custa uma aula de Yoga?


"Apesar de termos noção da faixa de valores que se paga por uma aula, o que a tradição védica diz sobre isso às vezes passa despercebido. Seja como professor ou aluno o quanto custa uma aula de yoga é sempre um assunto amplamente discutido. Alguns dizem que é muito barato pelo resultado proposto, outros dizem que o yoga e o conhecimento espiritual de uma forma geral, deveriam ser de graça. Existem alunos que só valorizam quando o preço é alto e professores que cobram baixo e acreditam que essa é a sina do professor de yoga. E por fim alguns professores que conseguem realmente viver da aula de yoga e alunos que pagam as aulas com prazer. Qual a verdade de tudo isso? Yoga deveria ser de graça?

No ocidente existe essa idéia de que o conhecimento espiritual deveria ser gratuito. Talvez ela tenha surgido por influência da Igreja que por defender o “direito do homem aos céus” e propor seu trabalho de “salvação” pela causa do próximo, tenha construído na nossa mente uma espécie de dissociação entre o dinheiro e os “céus” que representam para muitos o conceito de espiritualidade. O dinheiro ainda é chamado de “demônio ou tentação”, e os monges fazem voto de pobreza, apesar de viverem em uma das instituições mais ricas na história da humanidade. Não temos nada a ganhar em criticar a história ou a Igreja e com certeza existem pessoas sinceras e vários tipos de administração para essa instituição. Seria injusto condenar, porém não podemos negar que esses conceitos são muito bem enraizados na nossa cultura ocidental e nesse reconhecimento reganhamos consciência sobre esse assunto e podemos mudar.
Se não bastasse essa influência religiosa, existe ainda a influência da mentalidade capitalista. O capitalismo produz em geral dois efeitos: a supervalorização do dinheiro, tornando-o tão forte que vira uma espécie de tesouro fazendo a vida girar em torno dele; e uma paranóia coletiva, onde pensamos que todo mundo a todo o momento só quer pegar o que é nosso ou até mesmo nos enganar.
Nos dias de hoje, realmente, o dinheiro é um assunto importante para quem deseja o autoconhecimento, pois ele tem um papel importante na nossa mente e naturalmente na nossa vida. O uso inapropriado do dinheiro é um distúrbio, pois é um uso inapropriado de si mesmo. O dinheiro representa o “nosso suor”, os dias trabalhados, o esforço… E ele é tão forte e sutil que em folha de papel podemos fazer um cheque que representa todo o valor produzido por nós em uma vida inteira. Assim, para um yogi uma boa relação com o dinheiro é fundamental para ter uma mente equilibrada. E a boa relação com o dinheiro é que o fluxo de dinheiro “flua” proporcionalmente para aquilo que a pessoa valoriza.
Somos capazes de gastar 200 reais em um uma bolsa ou restaurante, mas consideramos o mesmo valor caro para uma aula de yoga. Gastamos 10.000 reais para visitar índia e não somos capazes de dar 10 rupias para um mendigo na porta do templo. E ainda queremos fazer grandes negócios até mesmo com nossos supostos amigos e parentes onde “você me dá tudo e eu não te dou nada”, queremos consultas de graça, serviços e soluções para nossas vidas. Uma “cara de pau” sustentada pela fantasia de que estamos ainda fazendo um grande favor ou que pagaremos depois de outras formas. Temos a impressão que estamos economizando no bolso, mas estamos economizando no coração e nos tornando cada vez mais alienados do mundo, separados por essa barreira do “demônio”, o dinheiro.
Na visão dos Vedas o dinheiro é considerado um Devata, um aspecto divino muitas vezes chamado pelo nome de Mahalakshmi – a Deusa da riqueza. Nessa tradição ela tem que ser sempre bem tratada para que nossos empreendimentos dêem certo sejam eles quais forem. Talvez alguns mestres não estabeleçam preço ou uma mensalidade, mas mesmo no coração da Índia de acordo com os Vedas não existe aula de graça, uma vida de aluno, “brahmacari”, é uma vida deseva, serviço ao mestre, onde se trabalha muito. Isso acontecia não só porque mestre e alunos moravam juntos, mas porque enquanto estudam os alunos muitas vezes não tem condição de pagar pelos seus custos. E por isso tradicionalmente ao completar o estudo a pessoa para poder casar e seguir sua vida em frente tinha que trabalhar alguns anos para pagar ao mestre, ao local de estudo e por tudo que ele recebeu.
Da mesma maneira a tudo na tradição védica existe uma troca, que não é necessariamente financeira, mas ela sempre está presente. Quando você vai ao médico ayurvédico, você paga. Quando alguém faz um ritual, os pujares e até mesmo as pessoas que ajudam recebem um dinheiro. Quando você vai ao astrólogo, você paga pela consulta. E até mesmo quando você faz aniversário, é você quem paga. Na Índia o aniversariante não recebe presentes, o aniversário é visto como uma oportunidade de oferecer comida para todos os seus amigos e a comunidade. E ainda através deles, que ritualisticamente representam seus antepassados, a pessoa agradece por tudo que recebeu na sua vida.
Essa visão e jeito de lidar com o dinheiro não é transformar a espiritualidade em um comércio, mas se a pessoa for capaz de espiritualizar o  seu dinheiro, a sua própria vida deixa de ser um comércio. A verdade é que a vida é composta de muitas coisas que não podem ser compradas e muito poucas que o dinheiro pode pagar. Qual o valor de um pai? E uma mãe? Quanto custa a paz e a felicidade de uma pessoa? Quanto vale saber o remédio correto quando se está doente? Quanto custa um abraço? E um sorriso? Quanto se pagaria por mais um ano de vida?
Quando estamos lidando com yoga, não das posturas propriamente ditas, mas de tudo que esse nome comporta, da meditação, dos mantras, das pujas, do estilo de vida e do próprio autoconhecimento, existe realmente um valor para tudo isso? Ninguém realmente pode pagar por uma aula, talvez a gente possa pagar o tempo do professor, ou o aluguel da sala, mas esse conhecimento vem vindo atravessando milênios em cada sementinha dos japa-malas (cordão de contas usadas na meditação), que vem passando de pessoa para pessoa, de mestre para discípulo. De verdade, ninguém pode cobrar por ele, porque ele não pertence a ninguém, e ninguém pode pagar por ele porque ele não tem preço. Então quem ensina cobra o suficiente para ter um padrão de vida aceitável e faz valer todo o seu tempo dedicado a isso, como em uma aula de qualquer outro assunto, sua contribuição é dar o melhor de si pelos alunos; e quem estuda contribui proporcionalmente a suas capacidades, e seu papel é fazer com que esse conhecimento possa continuar fluindo para os próximos, como também deveria ser para qualquer outro assunto que se valoriza. Essa atitude de contribuição transforma o pagamento em o que é chamado de “dakshina”. Dakshina é um oferecimento, uma contribuição, a nossa parte, a nossa retribuição, o reconhecimento pelo que é dado a nós em cada aspecto das nossas vidas; e o respeito com os nossos próprios valores e as pessoas ao redor.
E nessa tradição é assim, se na forma da riqueza Deus é Mahalakshmi, na forma daquele que dá o conhecimento Deus é chamado de Dakshinamurti."
ओम् नमो भगवते दक्षिणामूर्तये नमः॥
Esse texto foi escrito por Jonas Masetti no site Yoga Vedanta Vedas | SatsangaOnline.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Mantra Sahanavavatu por Swami Dayananda


om saha nāvavatu
saha nau bhunaktu
saha vīryaṃ karavāvahai
tejasvināvadhītamastu mā vidviṣāvahai
oṃ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ

"Saha nau avatu. Saha – refere à Isvara. Nau – nós dois (professor e aluno). Avatu – reza.
Sempre começamos as nossas aulas com esse mantra. Então, esse primeiro verso diz: Que o Senhor possa nos abençoar.

Saha nau bhunaktu
Que o Senhor possa nos nutrir com conhecimento. O que é a nutrição de um estudante? Conhecimento.

Saha vīryaṃ karavāvahai
Que possamos merecer através do nosso esforço as qualificações, a capacidade, a infraestrutura para receber o conhecimento. Primeiro pedimos essa atitude, esse comprometimento que vem do entendimento. Essa certa resolução: Que eu tenha tudo que é necessário, valores e atitudes, para ter esse conhecimento. As vezes temos acesso a esse conhecimento mas não conseguimos entender por causa de alguns obstáculos. Não é nada demais, eles só precisam ser removidos. Entender não é uma coisa fácil e ensinar também não é, por isso o professor e o estudante fazem essa reza juntos. Então, pedimos para que eu possa ter paciência para ensinar, que eu possa ter a criatividade de encontrar novas formas de comunicação, para ter certeza que o outro entenderá. Em qualquer outro estudo você objetifica o que esta sendo estudando, aqui, no Vedanta não. Você esta incluso, você é o assunto estudado. Tudo que esta aqui é Isvara, que é você.
Por isso que a metodologia de ensinamento não é qualquer uma, tem que ser sempre de maneira apropriada, para ser lembrado. Lembrar o que foi dito na aula passada, no ano passado. O trabalho do professor é lembrar e o trabalho do estudante é esquecer... rs. E ficar lembrando o tempo todo. Que nos dois (professor e o estudante) saha vīryaṃ karavāvahai, possamos trabalhar juntos com uma boa energia.

Tejasvinavadhitamastu ma 
Tejasvi astu – não deixar o que foi estudado apenas na forma de palavras, deixe que elas se dissolvam na luz do entendimento. Deixe que as palavras se transformem em entendimento, compreensão. Essa parte da reza é mais por parte do estudante.
Vadhitamastu – que traga um brilho extra, brilho de clareza, que a clareza possa crescer. Por isso que estudar as escrituras por si só é um sadhana, é para clareza.
Quando o professor esta sentado, tentando resolver um problema, o problema é seu, existe uma confiança. Quando a confiança esta la, a transferencia é inevitável. Que não seja criado nenhum mal entendido entre nos (vidviṣāvahai). Para manter sradha, confiança. Esse é um conhecimento peculiar sobre o Todo, então, não existe metade do entendimento, só existe entendimento não muito claro. Srastas (escrituras) são formas independentes de conhecimento, o entendimento de que Jiva é Isvara. Os srastas passam o ensinamento de forma completa e se eu não entendo é meu problema, não das escrituras. Preciso olhar para as escrituras de forma diferente, se não teremos diferentes significados da mesma escritura, como que você é somente uma parte de Isvara. E isso é equivocado, não é o que queremos.

Om Shanti – que não tenha obstáculos em mim (corpo e mente)
Shanti – que não tenha obstáculos no mundo exterior (sociedade)
Shanti – que remova os obstáculos das causas naturais que não tenho nenhum controle.

Om shanti é uma reza, que possa remover esses obstáculos da minha vida. Por isso é feito em todas as aberturas e finalizações de estudos das escrituras e aulas."

Om Tat Sat

Esse texto foi transcrito e traduzido de uma aula do Swami Dayananda por Renata Mendes.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Sonhos que aprisionam

"Havia na minha casa, até uns dias atrás, uma travessa cheia de pedras. Elas eram de cores, tamanhos e formatos diferentes. Tinham em comum o fato de haverem sido coletadas em viagens. Se eu estivesse num lugar especial, procurava uma pedra bonita e a metia no bolso. Mais tarde, de volta em casa, juntava o item novo à coleção. 
Haveria, talvez, umas 30 pedras na travessa.
Na semana passada, preparando a casa para uma reforma, disposto a recomeçar a vida, decidi que era hora de me livrar de coisas que eu vinha acumulando desnecessariamente há pelo menos 10 anos. Rodaram roupas, objetos, revistas, livros e, claro, as pedras. Mas não foi fácil.
Cada vez que eu punha uma coisa de lado, com a disposição de me livrar dela, algo me incomodava profundamente. Havia uma dor ali, ou várias dores diferentes. 
As pedras eram parte do passado que, de alguma forma, eu tentava agarrar e materializar. Os livros, vários que eu nunca tinha lido, representavam uma inquietação pelo futuro: agora eu nunca saberia o que há dentro deles. As roupas, muitas delas sem usar há anos, ficavam me acenando do chão, empilhadas, com as situações que haveriam de vir e nas quais eu sentiria falta delas.
O nome desse sentimento inquietante é apego.
A gente se agarra às coisas, como se agarra às pessoas e às ideias. Na verdade está tudo entrelaçado. As coisas representam pessoas, que nos remetem a sentimentos e ideias. Ou representam sentimentos e ideias, que nos lembram de pessoas. Qualquer que seja a ordem, esse sentimento é um fardo. Tentando reformar e recomeçar, tentando reiniciar a vida, a gente percebe como é difícil deixar as coisas para trás. Inclusive os sonhos e os planos, por mais banais e genéricos que sejam. 
Assim como nos apegamos a livros que nunca lemos, ou CDs que nunca ouvimos, também NOS APAIXONAMOS POR COISAS QUE NUNCA VIVEMOS e gostaríamos de viver, embora não sejamos capazes de explicá-las ou defini-las. Essa forma de apego é VAGA, mas tem uma força brutal sobre as nossas ações.
A esperança de viver coisas ESPETACULARES (mas indefinidas) no futuro impede que a gente se mova no presente. Ela leva, por exemplo, algumas pessoas a protelar indefinidamente relações afetivas duradouras. ELAS NÃO CONSEGUEM RENUNCIAR AO SONHO DE PERFEIÇÃO DO CONTO DE FADAS OU ABRIR MÃO DAS POSSIBILIDADES ERÓTICAS OFERECIDAS POR UM PLANETA COM SEIS BILHÕES DE PESSOAS. Isso equivale à dificuldade de jogar fora um DVD que nunca foi visto. É apego pelo desconhecido.
Tenho a impressão de que esse sentimento pelo futuro é o maior obstáculo à mudança na nossa vida.
O passado é uma entidade com peso e qualidade definidos. Lidamos com ele todos os dias. Desapegar não é simples, como mostra a minha coleção de pedras, mas pode ser negociado, como sabem os analistas. Memórias podem ser reavaliadas, experiências podem ser diluídas no tempo. Podemos chegar à conclusão que sobreviveremos ao grande amor e ao grande trauma – e com alguma pesar, por um e por outro, somos capazes de enterrá-los em alguma medida.
O futuro é outra história. Nele residem todas as nossas expectativas. Depositamos neles nossas aspirações práticas e subjetivas. Em direção a ele arremessamos os nossos desejos não realizados, a redenção das nossas frustrações. No futuro encontra-se a pessoa que desejamos ser. A felicidade mora lá e nos assombra como um fantasma a cada minuto da nossa vida. Não saberíamos viver sem ela. Seria desumano.
É contra essa esperança enorme, avassaladora e perniciosa que temos de lutar todos os dias para tomar conta da nossa vida. Não basta olhar para trás e se livrar das coleções de pedras. Ou das roupas velhas. Para começar de novo, em qualquer idade, temos de jogar fora os sonhos embolorados e as ilusões. Precisamos nos livrar do futuro sem rosto que nos assombra.
É provável que a felicidade, como coisa duradoura, não exista. Mas, se ela pode ser encontrada em algum lugar, ainda que de forma fugidia, é no presente. Para enxergá-la, precisamos estar de olhos bem abertos, livres das sombras do passado e das luzes que cegam no futuro. Não é fácil, mas quem disse que a vida é simples?"

Texto por Ivan Martins